´´Independência ou Morte

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        Cariocas lotam as praias no feriado de 7 de Setembro

Em fevereiro de 2020, uma nuvem negra já cobria praticamente o mundo todo, aprisionando a população numa dobra do tempo, forçando o isolando e limitando-a a uma forma de vida quase vegana, digo, vegetativa.

Infelizmente nem tudo ficou congelado: a fome aumentou seu apetite; doenças tiveram seus diagnósticos postergados, enquanto avançaram silenciosamente; sonhos empoeiraram nas prateleiras quase inalcançáveis; contas destruíram empresas e devoraram as escassas economias de muitos; postos de trabalho deixaram de existir para sempre; e alguns trabalhadores nunca mais receberão salários. Países fecharam suas fronteiras, empresas suas portas, meios de transporte estancaram, o direito de ir e vir foi tolhido, a economia encolheu, e pessoas se viram aprisionadas, tal qual na ditadura de certos países...

Os soldados, desta vez, vestem uniforme branco. Nas frentes de batalha são confinados ao trabalho desumano e extenuante, num front superlotado de feridos. Civis e combatentes  tombam sem sequer terem direito a uma despedida, cerimônia fúnebre, muito menos são distribuídas medalhas para os heróis mortos em combate.

As atitudes dos governantes pelo mundo foram semelhantes, decretaram o isolamento e ajudas financeiras foram dadas. No Brasil foi parecido, contudo, nossos políticos reagiram “Aqui, não!” e não permitiram que a pandemia se atrevesse a atrapalhar a maior festa popular do mundo. Sem convite e visto de entrada cassado, o vírus aguardou respeitosamente a sua vez e só se tornou um risco depois carnaval.

Mas houve outras diferenças: nosso presidente e parte dos políticos se comportaram com desfaçatez e inegável irresponsabilidade, incentivando a população desarmada a simplesmente enfrentar o inimigo; além disso, não seria Brasil se não existissem larápios se aproveitando de verbas públicas e privadas para construir hospitais de campanha que mal entraram em funcionamento e comprar equipamentos superfaturados, alguns que jamais serão utilizados.

Mesmo com os maus exemplos, muitas empresas contribuíram significativamente, e a maior parte da população se comportou exemplarmente durante seis longos meses, mas... paciência tem limite. Sinais de inquietação já estavam sendo notados, até que chegou o feriado da independência do Brasil, que fez tocar o despertador no subconsciente coletivo e, tal qual nosso imperador, Dom Pedro I, o povo num rompante espontâneo bradou: “Independência ou Morte!”, conforme queria nosso presidente há tempos.

O que se viu à seguir foi o estouro da boiada, as praias foram inundadas de pessoas, as baladas bombaram e os hotéis do litoral tiveram sua lotação inesperadamente esgotada. Sem panelaço, o povo foi às ruas para retomar a liberdade que lhe pertence e não abre mão!

Aqui em casa não foi diferente, apesar de não termos viajado, minha esposa convidou o irmão, uma prima, que convidou um amigo... enfim, quando percebemos, tínhamos quase vinte pessoas ao redor da mesa, que incluíam adultos, três crianças e uma idosa.

Apesar das perdas, deverá vir também o baby boom, para contribuir com o aumento na natalidade típico do pós guerra, e alerto: a Covid19 que se cuide, o gigante dorme, mas quando acorda, não tem quem possa com ele, pois declaramos definitivamente “Basta! Independência ou Morte!”

Espero que ninguém tenha dúvida quanto ao tom irônico desse meu texto.


Ricardo Koetz
ricardo@bluesrockshow.com

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