´´Inimigo público número 1?

Quem sou eu?

Você tem convicções socialistas? Está aberto a uma opinião diferente da sua e disposto a me mostrar outros pontos de vista? Depois de ler meu texto, sentaremos à uma mesa saboreando uma ou várias cervejas, discutiremos sobre o que eu discorri e nos tornaremos ainda mais amigos. Mas se suas convicções são inflexíveis, feche a página para que possamos continuar a tomar cervejas juntos e continuar amigos, sem nunca tocar nesse assunto, pois nunca ouvirá de mim a frase de Che Guevara “Não posso ser amigo de quem não compartilha das mesmas idéias que eu.”, apesar disso, alguns amigos hoje me evitam. Qual será o próximo passo, agir como as torcidas organizadas de times rivais e nos degladiarmos com paus e pedras no nosso próximo encontro? Não, meu irmão, sou perfeitamente capaz de ser amigo de quem tem opiniões contrárias às minhas. Essa é a diferença básica entre o regime socialista comunista e o democrático.

Na passeata de 13 de março de 2016, domingo, no movimento “Vem Pra Rua”, o inocente útil aqui foi à Avenida Paulista para conferir se é verdade o que, alguns amigos meus simpatizantes do governo, dizem se tratar de uma marcha ridícula de “coxinhas” orquestrada pela mídia, principalmente a rede Globo.

Cheguei cedo e saí quando estava começando a se tornar impossível me movimentar. Vi apenas pessoas de bem, basicamente famílias com gerações de todas as idades. Falou-se em milhões de pessoas vestidas de verde-amarelo, num ambiente extremamente pacífico. Havia três carros de som, mas ninguém estava ligando, foi um movimento espontâneo e apartidário. Quem estava lá, foi para dizer que não concordava com a corrupção sistêmica que tomou conta do país e que não se sentia mais representado pelos políticos sujos que tomavam conta de nosso destino. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin e o ex-governador de Minas, Aécio Neves, tentaram pegar uma carona na manifestação mas, mesmo sendo da oposição “como nós”, foram escorraçados de lá sob vaias e gritos de “oportunista”. Como disse, apartidário, a bandeira de nossa pátria era onipresente e nenhuma bandeira política seria tolerada, muito menos políticos bem-vindos.

Cinco dias depois, dia 18, sexta-feira, dia útil, foi feita a passeata pela presidenta e aí sim, vi uma passeata totalmente partidária, o verde-amarelo foi trocado pelo vermelho e as bandeiras do Brasil trocadas por bandeiras do PT, partidos de extrema esquerda, sindicatos e “movimentos sociais” cuja legitimidade já se perdeu há tempos, além de políticos discursando. Um amigo militante me convidou a ir, me desculpei, nos dias úteis preciso trabalhar para pagar impostos. Tive a mesma impressão de milhões de pessoas, uma diferença gritante: o grupo do dia 18 – bem menor – foi para defender um partido, enquanto que o do dia 13 estava lá para se manifestar pelo país.

Poucos dias depois foram divulgadas gravações de conteúdo pouco ético entre a presidente e Lula. Mais uma vez, “os vermelhos”, no lugar de discutir o assunto tratado, estavam discutindo se as gravações eram legais ou não, se poderiam ou não trazer algum prejuízo ao partido deles, pouco se importando com o conteúdo gravado. Vi o líder maior do partido incitando a desordem social, vejo-os defendendo o errado como certo porque outros desclassificados também já cometeram crimes semelhantes e conseguiram se safar impunes. Aparentemente defendem mitos e deuses que estão acima de qualquer questionamento ou crítica.

Nas redes sociais, vi simpatizantes do governo tentando ridicularizar a manifestação do dia 13, colocando uma foto de um casal na passeata do Rio de Janeiro, empurrando um carrinho de bebê de gêmeos e uma babá caminhando ao lado. Em momento algum foi cogitada a ideia de que o casal estaria dando um emprego a alguém que tivesse necessidade, ajudando toda uma família, que ambas as partes poderiam estar satisfeitas e se beneficiando mutuamente na troca do numerário pelo serviço prestado. O que houve foi um transbordo de comentários preconceituosos que tentavam diminuir a importância da marcha e provar com isso que se tratava de um movimento “imperialista burguês”. Diante dessa prova cabal, aflorou em mim uma dúvida freudiana:

Quem é esse odioso vilão que merece todo o desprezo do mundo, inimigo público número 1, o burguês. Eu?

É difícil de acreditar que ainda estou ouvindo esse xororô do pobre proletariado sendo explorado pela elite burguesa imperialista inescrupulosa. Ora, por favor! Isso podia ser realidade nos "Tempos Modernos" de Charlie Chaplin. Adoram dizer também que os burgueses não suportam a ideia de ver os menos favorecidos prosperarem, acho que isso, nem na época de Chaplin era verdadeiro. Conversa de sindicalista que quer garantir a boquinha e precisa criar um lobo-mau para controlar suas ovelhas. 

Pregam uma luta contra o mau caráter e desalmado burguês, e querem que o regime caminhe em direção ao "socialismo" promovido nos países da cortina de ferro. Mas que regime é este afinal? Tudo o que sabemos é que sob o comunismo, os homens serão iguais, prósperos e livres. A filosofia é tão nobre que aqueles que tentam chamar a atenção para fatos inquietantes, são ignorados ou demonizados. O fato de ter abolido muitas formas de democracia, não tem importância. Extermínio, prisão de seus opositores, privações e fome ao qual o povo foi submetido, a ruína de todas associações livres e da produção, a extinção da imprensa livre, milhões que pagaram com suas vidas, outros milhões que seguiram sofrendo aprisionamentos ou perseguidos, a perda de todo direito social concebível, a coletivização das mentes e a punição daqueles que pensam de forma diferente; são um mero detalhe.

Na vida real a promessa de paraíso é contrastada com a realidade do inferno. Uma ordem política que confere honras a seus críticos é de um tipo radicalmente diferente daquela que os coloca para apodrecer nas prisões ou os leva à morte. Vide alguns de nossos países vizinhos. Ignoram o fato de que não é o capitalismo ou o sistema econômico de uma nação que determina seu caráter, mas suas instituições políticas. Na realidade, esses regimes sequer se aproximaram do que seria uma torta caricatura de um vago socialismo.

O esquerdista tem uma necessidade permanente de um inimigo. A ingenuidade filosófica contenta-se em primeiro lugar com as referências rotineiras às mazelas do capitalismo e da propriedade privada. Enquanto pretende criticar o sistema, ele proclama os mesmos desgastados slogans pelos quais renova sua reivindicação pelo poder. Está pouco consciente sobre o quanto a miséria pública nas economias socialistas foi aumentada pelo próprio regime. Agarra-se a algo que está ruindo, sua atitude acrítica em relação aos seus líderes e seus próprios sermões, reforça a crença que se sobrepõe aos fatos reais – credulidade acima da sapiência. Boicotam os meios de comunicação que denunciam irregularidades, sob o pretexto de serem caluniosos e golpistas dominados pelo imperialismo, com isso filtram apenas as notícias que lhes convém, se transportam para uma realidade paralela e falam em lutas de classes como se estivéssemos vivendo a época da escravidão. Seu círculo de relacionamentos torna-se mais restrito, comunica-se principalmente com aqueles que aceitem seus termos ditatoriais. Tenta nos encorajar a julgar o comunismo por suas intenções, não por suas ações, mesmo com os movimentos sociais infestados de parasitas do estado e vagabundos profissionais, contudo, o que transparece não é uma nova face da emancipação, mas a velha face da tirania. 

Graças à cegueira ideológica, a mão morta do socialismo, que faliu países inteiros no mundo todo, o regime que mais matou no século XX, mantém sua bandeira puída e desbotada tremulando.

Marx demonstra como redefinir a desigualdade social como uma forma de “opressão”. Ele transforma desigualdade em injustiça e assim justifica aquela “violência por igualdade” que desperta as simpatias da classe média heróica. A “Classe” criou a imagem do proletário como a vítima da injustiça e a imagem da burguesia como a opressora insolente do trabalhador – trabalhador do qual a burguesia retira seu sustento.

Um orador talentoso e carismático faz palavras brilharem como luz e é capaz de seduzir a inteligência dos suscetíveis por meio da linguagem, por sua vez, os convertidos transformam frases em oráculos. A censurável simplificação dos dados históricos tem como objetivo principal não a verdade, mas propaganda e sedução, o que permite ao “crente” afastar sua mente dos fatos da história e dar vazão ao seu fervor religioso. Na mente científica, a crença é a consequência, e não a causa do entendimento, mas aqui, o apelo deixa de ser intelectual, e passa a ser emocional, o racional dá lugar à ideologia. Este é o critério da fé religiosa: para entender é preciso crer. Nasce o fundamentalista político-religioso, que no lugar de pontes cria muros.

A doutrinação ideológica muitas vezes começa dentro da sala de aula, muitos professores querem formar cidadãos (de acordo com seus conceitos) e deixa as matérias para um segundo plano. Na minha opinião, se as escolas devem ser laicas, quem ensina também deve deixar as próprias ideologias e a militância de lado, se limitando a dar as matérias. Os livros também devem ser isentos, mas não é esta a realidade atual.

Para sua persuasão, a visão socialista é dependente de uma forma de capitalismo que não mais existe: a imagem do implacável empresário, motivado somente pelo lucro, que emprega somente aqueles que são compelidos pelas circunstâncias a aceitarem seu salário. Os sindicatos também se esforçam para passar essa visão e tentam justificar o quinhão que tomam compulsoriamente dos assalariados, procurando vender a imagem de uma “batalha” travada diariamente entre eles e os inescrupulosos detentores do poder, para defender a explorada classe trabalhadora.

Mas, afinal, quem é a elite burguesa hoje? Um inimigo fictício criado no imaginário do comunismo retrógado? 

A maioria esmagadora das empresas que existem hoje e que dão 90% dos empregos, são de porte pequeno onde seus donos têm lucros escassos e fazem das tripas o coração para conseguir pagar todos os impostos e encargos gerados pelo caos tributário que vivemos. Eles não são um CNPJ de uma pessoa jurídica abstrata, eles são de carne e osso, sofrem, suam, sangram e têm sentimentos de alegria e tristeza como qualquer um. Não são um lobo-mau, são cidadãos que dão emprego e salário a quem precisa, geram um enorme benefício social, além de sustentar governos e sindicatos que, na sua relação parasitária e apetite insaciável, podem facilmente matar a galinha que bota os ovos de ouro que os sustentam. Seus donos geralmente são pequenos empresários que resolveram arriscar as economias num negócio ou um desempregado que investe sua rescisão e FGTS num micronegócio. 

São esses os opressores? Essa é a elite burguesa? Ah, então deve ser o profissional liberal, advogado ou médico, que tem babá, que depois de investir quase uma década ou mais em estudo está colhendo os frutos de sacrifício. Não? Sabia que os sindicatos são uma mina de ouro? Bom, mas vamos deixar esses de lado também. Serão os funcionários públicos que vivem cheios de benesses, cujos cargos todos cobiçam? Então, quem é? Temos também as grandes empresas e as multinacionais, que pagam bons salários e têm bons benefícios, que são o sonho de qualquer mortal. Serão os empregados das multinacionais ou das estatais? Acho que não. Talvez os que em conluio com políticos criam obras superfaturadas ou fictícias? Também não? Sobraram algumas dúzias de mega empresários. Serão eles que, no lugar de desfrutarem suas vidas de opulência e luxuria, preferem arriscar suas fortunas só para escravizar quem não tem emprego e oprimir a nação?

A empresa como um monstro sinistro, avassalador e incontrolável cujos propósitos impessoais sugam nossas vidas e determinam nossas satisfações, não existe mais.

Seria então correto dizer que o burguês poderia ser qualquer pessoa que tenha ou não sua origem na linha da pobreza, e que consegue galgar uma posição que lhe proporciona uma renda digna? Qualquer um que tenha sucesso e dinheiro suficiente para pagar uma empregada doméstica recebe o título de burguês, vira elite? Alguém que pode comprar um carro zero? Quanto alguém tem que ganhar para ser considerado “coxinha”? Quem vai no domingo ao cinema no shopping é burguês? Quem veste tênis Nike? Não sei, mas aprendi que se tem babá, então é!

Tenho dois colaboradores que trabalham comigo, um há 17 anos e outro há 5, registrados, serei eu também um inimigo e opressor do proletariado? Ou basta não usar vermelho e não ter a fé cega? Se quem tem casa própria – mesmo precisando de uma super reforma – é burguês, então eu sou. Mas será que ainda posso ser considerado elite? Tenho um carro com mais de 10 anos de uso, caindo aos pedaços, e tive que despedir minha amiga e diarista que trabalhava registrada comigo há mais de 10 anos. Nunca quis explorá-la e ela nunca se sentiu assim. Será que perdi o título? Não sou mais elite ou burguês por ter um carro velho e não ter mais empregada? Bom, mas eu fui na passeata verde-amarelo. Burguês e coxinha é a mesma coisa?

Tenho um amigo que se viu na mesma situação, despediu-se da diarista dele com lágrimas nos olhos. Algumas semanas depois, encontrou-a novamente e disse que em 2018 Lula se elege e tudo ficará bem de novo, para dar-lhe a esperança de ter o emprego de volta. Ela não se mostrou interessada, falou que vai ganhar cesta básica da prefeitura e que se conseguir a Bolsa Família, não volta a trabalhar mais não. Está procurando alguém que possa fazer com que o estado estenda sua asa caridosa do socialismo sobre ela.

A minha amiga? Esta está bem! Conseguiu um emprego numa empresa que administra rodovias, tem benefícios e está feliz da vida. Será que mesmo satisfeita ela está sendo explorada pelas impiedosas empresas imperialistas e deveria estar se mobilizando contra seu empregador? Será que está virando burguesa? Afinal, em última análise, quem é este desapiedado acumulador de capital? Você? Eu? Os acionistas da Petrobras? Os donos da Volkswagen?

Uma coisa é certa, miséria gera mais miséria, mais violência, mais ignorância, gera cobiça pelo que não o pertence, até que destrua a auto-estima, o orgulho. Tomado pela autopiedade, acha que a sociedade "opressora" tem obrigação de lhe dar o que não consegue alcançar. Cansado de lamber as próprias feridas, precisa eleger um culpado responsável pelo seu estado: o burguês ou governo burguês, sem rosto, sem nome, que no fundo preenche o perfil daquilo que gostaria de ser. Esquece-se de que ataca a “maioria moral” da qual seus privilégios dependem.

Observe os mundos do “capitalismo real” e do “socialismo real” e pergunte-se qual deles é o mais poluente. Pergunte-se qual regime responde mais às necessidades e aspirações dos despossuídos. Pergunte-se se os países que se livraram das garras nefastas e carcomidas desse regime, o querem de volta. Um servo recém-emancipado resiste à sua refeudalização. Estive em países que fizeram parte da cortina de ferro do leste europeu, pergunte aos locais o que acham do regime do qual se libertaram. Quando o governo interfere no mercado, cria escassez da qual dificilmente se poderia dizer que concedeu a “igualdade de ser”. Vivemos isso com os planos de controle de preço do governo Sarney. Iguala, sim, na miséria e na escassez.

Quero viver num país democrata, pagando o preço de viver num país de “capitalismo real”, onde até um despossuído, com pouca instrução, que pouco trabalhou, que orgulha-se de nunca ter lido um livro na vida, teve a oportunidade de ser presidente da república.

Mas, sinceramente, não quero nivelar por baixo, quero que tenha "muita elite", tenha muita gente rica, porque é do dinheiro deles que depende o progresso do negócio de qualquer um, inclusive do próprio governo para patrocinar os seus programas sociais. Em 1989, para comprar um marco alemão ocidental eram necessários quatro marcos orientais, quando o muro caiu em novembro desse mesmo ano, a despeito de o marco oriental valer apenas 25 centavos no ocidente, o governo alemão trocou um por um. Por que assumir tamanho “prejuízo”? Simples, para governos inteligentes e prósperos, não interessa ter um povo pobre que não consome, não paga impostos e não faz o país girar. Riqueza gera riqueza.

Quero ser burguês, quem não quer?


Ricardo Koetz
ricardo@bluesrockshow.com

Pelo menos quatro amigos radicais (ex-amigos agora) leram o texto. Esperando abrir algum debate para enriquecer meus conhecimentos e eventualmente corrigir ou modificar o texto acima, dois me deram as seguintes respostas magnânimas: "Lamento muito que você pense assim." e cortou relações. Pense o quê? Estou cheio de dúvidas, coloco mais perguntas que respostas... Outro disse "Concordo com algumas coisas e discordo totalmente de outras." concorda com o que, discorda do que, implorei, mas sua superioridade intelectual não me julgou digno de qualquer explicação. Lamentavelmente três deles nunca mais conversaram comigo e me excluíram da sua rede social, esse último finge tolerar minha existência, no entanto, a julgar pelas mensagens de sua rede social, se um dia houver uma luta armada provavelmente minha casa será a primeira da lista a ser incendiada.

Notas e crédito: às vezes tenho a necessidade de atacar uma folha de papel em branco, derramar toda minha alegria ou indignação com relação a um determinado tema ou acontecimento e materializar algo que está zumbindo em minha mente barulhenta.

Há algum tempo vinha fermentando algumas opiniões com relação ao assunto abordado, mas é preciso mencionar que alguns parágrafos tomaram forma e bronze adequados depois que li  “Pensadores da Nova Esquerda” do filósofo inglês Roger Scruton. As partes do texto que estão em itálico são frases dele adaptadas no meu contexto, mas há algumas outras em que houve uma fusão, onde utilizo palavras dele com minhas ideias e o texto se torna miscigenado demais para que seja possível determinar sua paternidade.

Eu sei que a preocupação é estúpida, já que em tempos de facebook, qualquer coisa que tenha mais que cinco linhas será sumariamente descartada, portanto, não creio que mais que três ou quatro pessoas venham a ler o texto, contudo, minha consciência não permite que eu me aproprie do que não me pertence, mesmo que sejam algumas simples palavras.

"A democracia é a pior de todas as formas de governo, excetuando-se as demais." Winston Churchill 

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