Patti Smith

28/10/2006 - Marina da Glória
 
 
Foto de Angelo Ricchi
 
Filha de pai ateu e mãe testemunha de Jeová, nasceu em 30/12/1946 em Chicago, Illinois e cresceu em New Jersey. Uma poetisa que não considerava fazer música, mas por insistência de um amigo gravou seu primeiro álbum, apenas aos 29 anos, e suas primeiras palavras são "Jesus died for somebody's sins…but not mine" (Jesus morreu pelos pecados de alguém…mas não pelos meus), um cover de Van Morrison - Gloria. 
 
 
Em matéria de voz feminina, tenho duas grandes paixões, os motivos para uma são óbvios, ela tem uma das vozes mais belas que já ouvi, é doce, linda, meiga, as músicas eram vigorosas, enquanto era a frontwoman do Nightwish, trata-se de Tarja Turunen. A outra é completamente oposta, é uma mudança da água pro vinho, que eu simplesmente não encontro razões lógicas para explicar. Patti é magrela, o som todo é "discreto", não tem um baixo absurdo, solos estonteantes ou uma bateria arrebatadora, mas de alguma forma a voz dela e entonação aliciaram meus ouvidos perpetuamente. Você não conhece? Ah, conhece sim, Because the Night já foi regravada por um monte de gente (ninguém tão bem quanto ela), uma música que ela fez com o Bruce Springsten, que ela relutava em gravar por acha-la meio careta, até o dia em que ficou um tempão esperando o namorado.
 
 
Por diversas vezes tentei fazer uma compilação para colocar em um CD "as melhores" músicas para apresenta-las aos amigos que não conhecem o seu trabalho, mas sempre fracassei... São várias que eu gosto muito, e não cabem todas em apenas um CD. Não consigo fazer um ranking. Sem pensar muito me vêm na mente as músicas Boy Cried Wolf, Dancing Barefoot e Ghost Dance, se eu tivesse que optar por não colocar uma das três no CD eu não conseguiria. Apesar de muito diferentes, nenhuma delas poderia ficar de fora. Apesar de parecer, não sou um fã incondicional não, o disco mais recente Banga, não me seduziu e não o terei, assim como também não tenho um que ela gravou só de covers, anterior a este - Twelve. Mas as músicas que me pegaram, são absolutamente essenciais para mim.
 
 
O responsável por minha paixão foi um amigo que tinha Frank Zappa acima de todos os músicos, mas que por questões religiosas resolveu se desfazer de seus LPs e se afastar de quem não fazia parte do que julgava condizente com sua crença, o que foi uma sorte de um lado, pois graças a isso, tenho a sua coleção da The Sensational Alex Harvey Band e meu irmão adquiriu dois discos da Patti Smith, o que inoculou o vírus de minha paixão, após algumas audições. Por outro, infelizmente também fui descartado junto com seus discos :-).
 
 
Mas Patti carrega com ela um título que me confunde até hoje, a Rainha do Punk - título que ela não contesta, até aceita com naturalidade.
 
No livro Só Garotos, em que ela conta parte da vida dela eu me surpreendi ainda mais, o punk é contracultura, certo? Patti com seu namorado adoravam literatura, deixavam de comer para comprar um livro de arte, sacrificavam o aluguel para ir a uma exposição, quando a grana dava só para um, quem entrava tinha a missão de guardar na memória a maior quantidade de informação possível e contar para o outro, que ficou esperando do lado de fora, tudo nos mínimos detalhes. Por favor, se alguém puder, me esclareça, qual é a conexão dela com o punk? A música dela tem algo a ver com punk rock? Fiz essas mesmas perguntas para o Bento Araújo, editor da poeiraZine, por quem tenho um enorme respeito, mas nem ele teve argumentos que me convencessem. A temática poética talvez? Ela tem uma postura contestadora, cospe no palco, não raspa o suvaco e não cuida  do cabelo, aliás, seu cabelo desgrenhado é uma de suas marcas registradas, será isso? Quanto a música, nada a ver. Excursionou com Bob Dylan, fim desse ano (2012) estará excursionando com Neil Young, não conseguiria imaginar Dylan e Young excursionando com os Sex Pistols ou Ramones...
 
 
Temia jamais vê-la cantar ou ter de ir aos EUA para isso, até que Patti foi escalada para tocar no Rio, num festival de música eletrônica, algo que talvez tenha sido a mãe das raves no Brasil. Nada a ver com ela, mas eu estava radiante pelo equívoco dos organizadores - eu não podia acreditar. Apesar de o festival também ocorrer em São Paulo e ela ter a cara de Sampa, ela só tocaria no Rio e em Curitiba no dia 31. Comprei o ingresso, esperei o dia, peguei meu carro e rodei pouco mais de 400 Km até a Marina da Glória onde o festival ocorreria.
 
 
Quando o show começou com Gimme Shelter dos Rolling Stones, já era domingo. Ergueu a guitarra no ar e declamou "Este é o único instrumento de guerra de que precisamos". O show teve um tom politizado, com Free Money e dedicou Beneath the Southern Cross às pessoas que perderam a vida por causa da política externa dos Estados Unidos.
 
 
O álbum que teve mais músicas apresentadas foi o de estréia Horses, mas não faltou a bela Pissing in a River, esquentou com So You Wanna Be a Rock'n'Roll Star e o seu grande hit Because the Night. Em seguida disse: ouvi dizer que amanhã é dia de eleições... não importa quem ganhe, são vocês que os colocam lá... lembrem-se que eles estão lá para servir a vocês e não para vocês os servirem, e o máximo de punk que vi foram as escarradas que dava. Depois disso não podia vir outra senão People Have the Power.
 
 
Sempre sorridente, faltando apenas 2 meses para completar 60 anos, essa senhora ficou ensandecida com Rock'n'Roll Nigger e depois de pouco mais de 1 hora de show fechou com Gloria, onde arrebentou cada uma das cordas de sua guitarra, veja foto abaixo.
 
    
Acho que não mais do que 500 pessoas assistiram ao show, depois dela ia tocar algo de nome Yeah Yeah Yeahs. Não fiquei para descobrir do que se tratava. A saída dava para um corredor largo entupido de gente, intransponível, pois tinha dois DJ's fazendo um putz-putz medonho - desculpem o pleonasmo. Mas mais difícil do que passar pela multidão estava sendo suportar aquilo, acabei achando um bombeiro que praticamente obriguei a me levar até o outro lado. Caminhei feliz até o hotel, por ter realizado mais um grande sonho e pensei comigo, Patti terminou o show com Gloria, na Marina da Glória e fui dormir no Hotel da Glória, oh Glória! (Nossa, isso ficou péssimo :-)) Viagei de volta em estado de graça para minha cidade a tempo de cumprir meu dever cívico, lembrando das palavras de Patti eles estão lá para servir vocês...
 
Foi o primeiro show que eu fotografei e logo percebi que a observação, a análise do show para fotos e relatos, atrapalham os sentimentos e impedem que eu deixe simplesmente me levar, estava feliz por levar comigo imagens para relembrar uma grande noite, mas também questionava se não era mais feliz sem esse compromisso. Sinceramente, até hoje não tenho a resposta.
 
Quem quiser arriscar, eis os links para as três músicas que sorteei ao acaso em minha memória, mas adverto, todas as pessoas com quem conversei tem a mesma opinião, Patti é como uma droga, não te fisga na primeira audição, mas depois de algum tempo não se vive mais sem, mesmo sem saber explicar o porquê.
 
Dancing Barefoot é uma baladinha fácil de se gostar como Because de Night, e foi regravada pelo U2 - muito melhor com ela.
Ghost Dance é quase um mantra e dá vontade de dançar como um bicho-grilo, a foto que aparece é muito mal escolhida, mas a música carrega rápido.
Boy Cried Wolf, cria um clima, adoro, principalmente a mudança de tom e o baixo depois dos 3 minutos e 15.
 
Ricardo
 
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